Sonhos

O
que nos dizem os sonhos
Sonhar
é um fenômeno que sempre chamou poderosamente a atenção
do ser humano. O relativo descaso conferido aos sonhos na atualidade
pode ser considerado mais a exceção do que a regra,
já que em outros momentos históricos e em outras
culturas eles despertavam tanto interesse quanto os acontecimentos
da vigília, ou até mais. Na nossa tradição
ocidental, temos os bem conhecidos exemplos da Bíblia e
autores clássicos tão respeitáveis como Platão
e Aristóteles têm nos legado um considerável
número de escritos que nos falam da importância outorgada
aos sonhos na sua época.
O pensamento dominante no Ocidente durante os três últimos
séculos impõe dificuldades para estudar este fenômeno.
Por um lado, porque as leis que regem o mundo da vigília
não são iguais às que imperam nos sonhos:
neles se realizam ações tão extraordinárias
como voar sem nenhum tipo de ajuda, respirar embaixo d’água,
dialogar com duendes e fadas, ou caminhar entre as chamas sem
sofrer o menor dano. Por outro lado, por serem os sonhos só
acessíveis através do relato dos sonhadores, é
muito difícil aplicar os parâmetros objetivos requeridos
habitualmente pelo método científico.
A partir de Freud, o estudo dos sonhos recobrou um respeito perdido
fazia muito tempo ao abrir a possibilidade de ser abordado cientificamente.
Diversos autores têm elaborado desde então suas respectivas
visões para se aproximar do tema, centrando-se em sua aplicação
na psicologia clínica.
Paralelamente, o público geral foi recuperando o interesse
nos sonhos que, embora não estivesse completamente perdido,
tinha ficado relegado ao anedótico. Hoje, há cada
vez mais livros com um enfoque sério acessíveis
ao leitor não especializado, assim como cursos e grupos
de trabalho com sonhos dos quais a pessoa pode se beneficiar sem
estar precisando necessariamente de psicoterapia. Prestar atenção
aos sonhos, fazer um diário e participar de um grupo de
trabalho com sonhos são atividades que, em nossos dias,
vem realizando um número crescente de pessoas em todo o
mundo, e isso pelos mais diversos motivos: para uns, facilita
ou enriquece as relações afetivas; a outros proporciona
um maior rendimento e criatividade no trabalho; há também
os que sentem clarificar suas inquietações espirituais,
assim como os que participam simplesmente por estarem interessados
no mundo dos sonhos.
Ainda existe, porém, uma tendência a considerar os
sonhos como algo prescindível. Podem despertar a curiosidade
de muitas pessoas e não é raro, em conversas casuais,
alguém admitir ter ficado profundamente impressionado com
algo que sonhou em determinado momento, mesmo sem compreender
muito bem o motivo dessa fascinação. Mas muitos
são ainda os que consideram mera superstição
a possibilidade de extrair um ensinamento dos sonhos, ou mesmo
aceitando a possibilidade de um trabalho sério com esse
fim, não sabem onde procurar, não confiam nas ofertas
que podem aparecer ou, simplesmente, na hora de lhes dedicar o
tempo e o esforço necessário, consideram que existem
outras prioridades.
Habitualmente, enxergamos a nós mesmos e ao mundo a nossa
volta através de determinados hábitos de percepção
formados ao longo da nossa história pessoal, a partir da
educação que recebemos e de formas rotineiras de
atuação que temos adotado mais ou menos irrefletidamente.
Estes hábitos dificultam tomar consciência das infinitas
possibilidades que oferece a vida. Os sonhos mostram aquilo que
foi deixado de lado durante a vigília, oferecendo-nos a
oportunidade de reconsiderar nossos preconceitos e ressarcir erros.
O problema é que, por estarmos acostumados demais a nossos
pontos de vista habituais, não conseguimos entender o que
os sonhos nos dizem. Utilizando uma linguagem natural, os sonhos
sempre ampliam a perspectiva do sonhador; mas trata- se de uma
linguagem que esquecemos e temos de redescobrir.
No meu sonho, eu via passar caminhões. Nas caçambas,
uns homens armados vigiavam caixas onde havia meninos presos.
Eu me sentia confusa e desesperada contemplando a cena.
Este sonho teve Clara, 22 anos de idade. Estava no último
ano de uma carreira que tinha cursado com notas brilhantes, abria-se
a sua frente um futuro profissional promissor e a perspectiva
de seu casamento próximo, com um rapaz muito bem situado.
Segundo ela, não havia nada mais que pedir à vida,
as coisas não podiam andar melhor Não obstante,
ela sofria freqüentes crises de pânico e de pesadelos;
mas estava conseguindo tudo aquilo que, desde pequena, lhe diziam
bastar para ser feliz. Já há algum tempo, tomava
tranqüilizantes receitados por seu médico, mas ela
considerava que só paliavam o problema, sem o solucionar
de fato. E, mesmo sem os compreender, ela intuía que seus
sonhos continham a chave do que lhe estava acontecendo. Foi assim
que decidiu entrar num grupo de trabalho com sonhos.
“A
arte de interpretar sonhos não se aprende em livros”,
costumava dizer Jung (1). A linguagem dos sonhos não é
comparável a um idioma convencional, cuja tradução
se obtém em um dicionário. Pelo contrário,
trata-se de deixar as próprias imagens desenrolarem seu
significado. Assim, após passar um tempo examinando e revivenciando
as imagens do seu sonho, Clara pôde identificar a angústia
que sentiam os meninos presos nas caixas como o medo que ela sentia
perante a vida. Além disso, ao sondar o talante daqueles
homens armados que os vigiavam, ia-se-lhe revelando como muito
próxima a sua própria atitude rígida e disciplinada,
intransigente consigo mesma e com as pessoas com quem convivia,
uma atitude que Clara não ousava questionar. Ao lhe propor
que liberasse na sua imaginação as crianças
do sonho, ela pode experimentar uma alegria que não se
permitia sentir desde a adolescência.
A partir desse momento, ela começou a perceber o sentido
que lhe oferecia uma vida que ia além de uma imagem socialmente
correta. Aos poucos, ela foi abrindo espaço no seu interior
a uma sensibilidade que dulcificou e refrescou sua existência,
afundada até aquele momento numa escrupulosidade exagerada
e numa desoladora pobreza espiritual. Talvez tivesse sido mais
cômodo não escutar o seu sonho e deixar as coisas
seguirem seu curso, mas Clara optou por se comprometer com as
novas possibilidades de transformação interna que
se lhe apresentavam e que, no decorrer do tempo, a conduziram
a um enriquecimento existencial e a viver a vida com maior intensidade.
Às
vezes, podemos nos sentir cômodos adotando uma atitude equivocada,
mas se não a corrigimos a tempo as conseqüências
são desastrosas. Luís, com trinta e um anos, decidiu
abrir um negócio associando-se a um antigo companheiro
de escola. Começou muito bem, parecia que tudo andava sobre
rodas, quando uma noite ele teve este sonho:
Estou indo no carro do meu sócio, ele dirige e eu estou
no banco de trás. Um golpe de vento faz girar o carro repentinamente.
Eu digo a mim mesmo: “Começou!”, como se eu
já soubesse o que ia acontecer. Protejo meu rosto com minhas
mãos, preocupado com o que possa me acontecer. Um tornado
faz o carro girar como um pião até os vidros estalarem.
Um instante mais tarde, eu me vejo junto ao meu pai; ele diz que
eu passei sete meses em coma. Estou com as mãos destroçadas
pelos vidros, quase não as posso mover. Lamento-me do meu
estado, mas ele me diz que podia ter sido pior. Ao que parece,
meu sócio se cortou levemente no rosto.
Luís compartilhou este sonho no grupo de trabalho com sonhos.
Num momento do trabalho foi lhe sugerido que se imaginasse, ele
mesmo, como sendo o tornado do sonho. Luís expressou o
que sentia neste papel com as seguintes palavras: “Sou poderoso,
eu posso fazer o que me der na telha”. A seguir, elaborando
sobre como se sentia em relação ao tema do poder,
foi comentando que, apesar de ter sido pactuado que ambos teriam
iguais competências na direção do negócio,
o sócio o estava deixando cada vez com menos capacidade
de decisão, ignorando as suas propostas e tomando iniciativas
relevantes sem o consultar. Luís estava sendo relegado
a um papel cada vez mais secundário, passando de fato a
agir mais como secretário do seu sócio do que como
co-diretor. Assim, no sonho a sócio estava dirigindo o
próprio carro e Luís se deixava levar no banco de
trás Mas o Luís não queria ou não
podia ver isso - no sonho, as mãos cobriam seus olhos.
Na sua imaginação, reivindicar seus direitos equivalia
a ser despótico ou mesquinho, e esses eram comportamentos
que ele odiava. Queria salvar sua imagem, do mesmo modo que no
sonho protegia o rosto. Entretanto, a partir do trabalho realizado
com esse sonho ele pôde tomar consciência de uma série
de medos e bloqueios que lhe impediam de avaliar adequadamente
o que estava sucedendo. Decidiu então adotar uma atitude
mais enérgica que, além de transformar profundamente
aquela auto-imagem de pessoa amável e respeitosa, lhe permitiu
sair de uma confusão da qual, se tivesse continuado com
sua atitude anterior, dificilmente teria se livrado - no sonho
não podia mover as mãos.
Com certeza, quando se está passando por uma crise, é
mais fácil questionar os pontos de vista pessoais. Contudo,
ver as coisas de um modo diferente e atuar em conseqüência
dá medo. Preferimos nos guiar pelo velho ditado: “É
melhor o mau conhecido que o bom por conhecer”. Quebrar
esquemas assusta, é mais fácil se agarrar aos valores
que dita a sociedade, desdenhando a própria verdade interior.
Os sonhos são a voz de nossa natureza mais íntima
e neles se expressa o mais autêntico de nós mesmos.
Eles mostram um caminho e segui-lo representa uma aventura que
conduz ao autêntico sentido da vida, desmascarando aquelas
atitudes incongruentes com o nosso ser mais profundo, que dominam
nossa forma de pensar e agir. Isso nos permite superar limitações
que só existem em nossa fantasia. Compreender nossos sonhos
nos abre a porta a um caminho de transformação,
evolução e superação.
Carlos
Bein
(1)
Jung, C. G.: “Civilização em transição”.
CW 10, § 325. Vozes, Petrópolis, 1993