História
do Rio Grande do Sul
A
história do Rio Grande do Sul, o estado mais ao sul do
Brasil, inicia-se com a chegada do homem à região,
cerca de 11 mil anos atrás. Suas mudanças mais dramáticas,
no entanto, ocorreram nos últimos cinco séculos,
depois do descobrimento do Brasil. Esse percurso mais recente
transcorreu em meio a diversos conflitos armados externos e internos,
alguns de grande violência. Guilhermino César dizia,
justificadamente, que essa história "é um dos
capítulos mais recentes da história brasileira",
pois quando no Nordeste já se cantavam missas polifônicas,
este estado ainda era ocupado por um punhado de povoados e estâncias
de gado portuguesas no centro-litoral, e o sul-sudeste era uma
"terra de ninguém" onde frequentemente incursionavam
tropas espanholas mandadas por Buenos Aires, defendendo os interesses
da Coroa Espanhola, proprietária legal da área nessa
época. Essencialmente, o Rio Grande do Sul, até
o fim do século XVIII, era uma região virgem habitada
por povos indígenas. Os únicos focos importantes
de civilização e cultura européias em todo
o território até esta altura eram um brilhante grupo
de reduções jesuítas fundado no noroeste,
destacando-se entre elas os Sete Povos das Missões. Entretanto,
sendo de criação espanhola, até há
pouco tempo as Missões eram vistas como sendo um capítulo
à parte da história do estado, tanto mais por não
terem deixado descendência cultural direta significativa.
Em anos recentes, entretanto, vêm sendo assimiladas à
historiografia integrada do estado.
Na
primeira metade do século XIX, após muitos conflitos
e tratados, obtendo Portugal a posse definitiva das terras que
hoje compõem o estado, expulsos os espanhóis, desmanteladas
as reduções e massacrados ou dispersos os índios,
se estabeleceu uma sociedade de matriz claramente portuguesa e
uma economia baseada principalmente no charque e no trigo, iniciando
um florescimento cultural nos maiores centros do litoral - Porto
Alegre, Pelotas e Rio Grande. Esse crescimento contou com a contribuição
de muitos imigrantes alemães, que desbravaram novas áreas
e criaram culturas regionais significativas e economias prósperas,
bem como com a força de muitos braços escravos.
Em 1835 iniciou um dramático conflito que envolveu os gaúchos
numa guerra fratricida, a Revolução Farroupilha,
de caráter separatista e republicano. Finda a guerra a
sociedade pôde se reestruturar. No final do século
o comércio se fortaleceu, chegaram imigrantes de outras
origens como italianos e judeus, e na virada para o século
XX o Rio Grande do Sul havia se tornado a terceira maior economia
do Brasil, com uma indústria em ascensão e uma rica
classe burguesa, mas ainda era um estado dividido por sérias
rivalidades políticas, e houve mais crises sangrentas.
Nessa época o Positivismo delineava o programa de governo,
criando uma dinastia de políticos herdeiros de Júlio
de Castilhos que governou até os anos 1960 e influiu em
todo o Brasil, especialmente através de Getúlio
Vargas, que em sua origem fora castilhista. No período
da ditadura militar o Rio Grande do Sul enfrentou muitas dificuldades
no que diz respeito à liberdade de expressão, como
enfrentou todo o país, mas o crescimento econômico
do Milagre Brasileiro propiciou investimentos na infraestrutura.
No final do ciclo, porém, o estado havia acumulado enorme
dívida pública. Nas últimas décadas
o estado vem consolidando uma economia dinâmica e diversificada,
ainda que bastante ligada ao setor agropecuário, e vem
ganhando fama como tendo uma população politizada
e educada. Ainda que existam muitos desafios a serem vencidos
e grandes diferenças regionais, em geral melhorou sua qualidade
de vida alcançando índices superiores à média
nacional, projetou-se culturalmente em todo o Brasil e iniciou
um processo de abertura para outros cenários em face da
globalização, enquanto que passava a prestar mais
atenção às suas raízes históricas,
à sua diversidade interna, aos excluídos e minorias,
e ao seu ambiente natural.

Pré-história
O
perfil geográfico do Rio Grande do Sul foi formado por
sucessivas transformações que iniciaram há
cerca de 600 milhões de anos. Esse território já
foi um mar, já foi um deserto, e em várias regiões
aconteceram soterramentos massivos por derrames de lava. Crê-se
que somente há dois milhões de anos a geografia
se definiu mais ou menos como hoje a conhecemos, quando se fixou
a faixa arenosa do litoral. A vida na pré-história
do Rio Grande do Sul foi rica em espécies animais e vegetais,
sendo encontrados muitos fósseis em especial na área
da Paleorrota. Há apenas cerca de 11 mil anos iniciou a
ocupação humana, com a chegada de grupos de caçadores-coletores
vindos do norte, que se instalaram em todos os recantos do estado,
formando culturas como a Umbu, a Humaitá, e a Sambaqui.
A cultura Taquara alcançou até mesmo algum grau
de sofisticação, visível na cerâmica
que produziram e na engenharia de abrigos subterrâneos,
interligados por túneis, revestidos de pedra cimentada
com barro, muitas vezes associados com outras construções
superficiais como plataformas de pedra. Outros vestígios
desses habitantes foram encontrados na forma de instrumentos de
pedra lascada, inscrições rupestres, amuletos, tumbas
e ossadas.
Essa fase prosseguiu sem mudanças significativas até
a chegada de uma segunda onda migratória há dois
mil anos, composta por índios guaranis oriundos da Amazônia.
Sendo um povo mais forte e mais organizado, submeteram praticamente
todos os antigos habitantes, introduzindo também a agricultura
e aperfeiçoando a cerâmica. Quando o Brasil foi descoberto,
em 1500, quase todos os índios do estado, que somavam de
100 mil a 150 mil na estimativa dos estudiosos, já eram
guaranis ou estavam misturados a eles. Os grupos menos afetados
por essa invasão foram os gês do planalto médio,
e os charruas e minuanos, do pampa.

Início
da colonização
O
território que hoje constitui o Rio Grande do Sul já
constava nos mapas portugueses, sob o nome de Capitania d'El-Rei,
desde o século XVI. A despeito do Tratado de Tordesilhas,
que definia o fim das terras portuguesas na altura de Laguna,
Portugal ansiava por estender seus domínios até
a foz do Rio da Prata. No século XVII bandeirantes de São
Paulo já percorriam a área em busca de tesouros
e para escravizar os índios. Nesse espírito, ignorando
os tratados, em 17 de julho de 1676, através de Carta Régia,
Portugal delimitou duas capitanias no sul, que em conjunto se
estendiam de Laguna até o Rio da Prata, doadas ao Visconde
de Asseca e a João Correia de Sá. Em 22 de novembro
de 1676 a bula papal Romani Pontificis Pastoralis Solicitudo veio
fortalecer as pretensões portuguesas, pois ao criar o bispado
do Rio de Janeiro, estabelecia como seus limites desde a costa
e sertão da Capitania do Espírito Santo até
o Rio da Prata. Logo em seguida a Coroa Portuguesa passou a cogitar
seriamente a ocupação das terras do sul, legalmente
espanholas.

Ocupação
do litoral
Uma primeira expedição de conquista, organizada
em 1677, malogrou. Outra, de 1680, sob comando de Dom Manuel Lobo,
conseguiu tocar o Prata em janeiro do ano seguinte, fundando a
Colônia do Sacramento, com um presídio e os primeiros
abrigos para os colonos. A Espanha, nesta altura fragilizada por
guerras contra a França, apesar de atacar a Colônia,
não esboçou uma reação mais séria
à expansão portuguesa, e em 1681 estabeleceu-se
o Tratado Provisional, delimitando novas fronteiras na região
e reconhecendo a soberania portuguesa sobre a margem esquerda
do Rio da Prata.
Com
o incentivo do estabelecimento deste posto avançado, os
portugueses passaram a se interessar pela ocupação
das terras intermediárias entre o Sacramento e a Capitania
de São Vicente. Em 1737 uma expedição militar
portuguesa, comandada pelo Brigadeiro José da Silva Pais,
foi incumbida de prestar socorro à Colônia, tomar
Montevidéu e levantar um forte em Maldonado. Fracassada
esta última empresa, o Brigadeiro decidiu instalar uma
povoação mais ao norte, livre das constantes disputas
entre portugueses e espanhóis. Destarte, navegou até
a barra da Lagoa dos Patos, erroneamente tomada como um rio, o
Rio Grande, e ali chegando em 19 de fevereiro de 1737, fundou
um presídio e ergueu o Forte Jesus, Maria e José,
constituindo a origem da cidade do Rio Grande, primeiro centro
de governo da região. O local era um ponto estratégico
para a defesa do território, estando a meio caminho entre
Laguna e a Colônia do Sacramento. As primeiras famílias
colonizadoras chegariam ali ainda neste ano, mas o trecho entre
Rio Grande e Tramandaí e os campos da região de
Vacaria, na serra do nordeste, também estavam sendo povoados
independentemente, situação facilitada pela extensão,
pelos tropeiros, da Estrada Real que vinha de São Paulo
até os Campos de Viamão, sendo que já em
1734 se contavam grandes estâncias de gado na área,
se lançavam as sementes das primeiras urbanizações
e os estancieiros começavam a solicitar a concessão
de sesmarias. A partir de 1748 começaram a chegar ao estado
famílias açorianas, enviadas pela Coroa Portuguesa,
para colonizá-lo. Instalaram-se primeiro em Rio Grande,
e depois outras se fixaram na região da futura Porto Alegre,
então ainda um diminuto povoado erguido junto ao porto
de Viamão. Partindo dali, outros grupos avançaram
pelos vales dos rios Taquari e Jacuí.

Primeira
ocupação europeia do interior
Entrementes, na parte noroeste do estado, os jesuítas espanhóis,
ligados à Província Jesuítica do Paraguai,
haviam estabelecido desde 1626 aldeamentos muito organizados reunindo
grande população indígena (cerca de 40 mil
pessoas), as reduções ou missões, fundadas
próximo ao Rio Uruguai. Sete delas, mais recentes, ficariam
sendo mais conhecidas como os Sete Povos das Missões, cujo
extraordinário florescimento incluía refinadas expressões
de arte nos moldes europeus. Os padres construíram uma
civilização à parte dos conflitos que agitavam
o litoral, e deixaram muitos registros sobre os povos indígenas,
sobre a geografia, a fauna e a flora da região, mas sua
contribuição mais direta para a história
do estado se resumiu à introdução do gado
e ao desenvolvimento de técnicas de pastoreio que mais
tarde seriam assimiladas pelos portugueses.
No
século XVIII um novo acordo entre as coroas ibéricas,
o Tratado de Madrid, haveria de mudar mais uma vez as fronteiras.
Através deste tratado, firmado em 13 de janeiro de 1750,
estabeleceu-se a permuta da Colônia do Sacramento pelos
Sete Povos, cujas populações indígenas seriam
transferidas para a área espanhola além do rio Uruguai.
A demarcação das novas fronteiras e a mudança
dos povos aldeados não transcorreram sem dificuldades.
Os jesuítas e os índios protestaram, esperava-se
confronto, e o Marquês de Pombal ordenou que o legado português,
o capitão-general Gomes Freire de Andrade, não entregasse
Sacramento sem que antes tivesse recebido os Sete Povos. A situação
se agravou e o conflito esperado eclodiu em Rio Pardo, originando
a chamada Guerra Guaranítica, que dizimaria grande número
de índios e dissolveria as Missões, mas no episódio
despontou a figura legendária do líder indígena
Sepé Tiaraju, hoje considerado um herói do estado
e um mártir da causa dos índios.
Depois da Guerra Guaranítica, Portugal decidiu prestar
mais atenção à capitania, que por esta altura
contava com pouco mais de sete mil habitantes, distribuídos
em cerca de 400 estâncias e poucos povoados e arraiais.
Desvinculou-a de Santa Catarina e a ligou diretamente à
sede carioca, nomeando um governador civil em vez de um comandante
militar. Em 1760 o governador espanhol em Buenos Aires, Don Pedro
de Cevallos, começou a intimar os portugueses a abandonarem
todas as terras ocupadas ilegalmente. Diante da ausência
de resposta, em 1763 atacou e conquistou Rio Grande, causando
a fuga em massa dos populares e obrigando a mudança às
pressas da capital portuguesa para Viamão. Agora o território
português se resumia a uma estreita faixa entre o litoral
e o vale do rio Jacuí. Em 1773 a capital foi transferida
de Viamão para Porto Alegre, em vista de sua situação
geográfica privilegiada. Em 1776 a vila de Rio Grande foi
retomada. Um outro tratado, o de Santo Ildefonso, de 1777, mais
uma vez retificaria as fronteiras e estabeleceria desta vez como
posse espanhola tanto Sacramento como os Sete Povos. No final
do século já existiam cerca de 500 estâncias
em atividade.

O
modelo estancieiro e a formação do "gaúcho"
Com a paz de Santo Ildefonso se intensificou a concessão
de sesmarias aos que se haviam destacado na guerra, e esta classe
de militares, agora donos de terras, foi a origem da aristocracia
pastoril gaúcha, consolidando o regime das estâncias
como uma das bases econômicas da região, mas dando
margem também a uma grande quantidade de abusos de poder,
que tinham seu fundamento na realidade de um grupo que se experimentara
a ferro e fogo, mas para quem o senso de justiça, lei e
humanidade estava morto. Os próprios administradores régios
davam péssimo exemplo, enriquecendo à custa da província
e acumulando vastas extensões de terras. Cada grande sesmeiro
era como um poderoso senhor feudal que só atendia aos seus
interesses e os impunha pela força. Repetidas vezes as
queixas chegaram à Coroa, mas sempre com pouco resultado.
A vida na estância era precária em todos os sentidos.
Somente os senhores podiam ter algum luxo numa casa grande, que
mais se parecia a uma fortificação, com paredes
grossas e grades nas janelas. Em torno dela se agrupavam a senzala
e famílias livres, que vinham em busca de proteção
e recebiam uma porção de terra em troca de um compromisso
de fidelidade servil para com o proprietário, produzindo
alimentos e bens manufaturados para seu sustento próprio
mas sobretudo para o patrão. A habitação
desses agregados era um sumário casebre de barro coberto
de palha, despojado de todo conforto. Um relato de época,
deixado por Felix Azara, descreve o ambiente:
"Possuem um barril
para a água, uma guampa para o leite e um espeto
para assar a carne. A mobília não vai além
de umas três peças. As mulheres andam descalças,
sujas e andrajosas. Seus filhos se criam vendo somente rios,
desertos, homens vagos correndo atrás das feras e
touros, matando-se friamente como se degolassem uma vaca". |
Mas
esse cenário nem sempre foi assim tão desumano.
Muitas estâncias produziam uma variedade considerável
de produtos agrícolas e de uma indústria primitiva,
tornando a propriedade autossuficiente e as condições
gerais um pouco melhores. Havia momentos de entretenimento nos
bolichos, pequenas casas de comércio, bebida e encontro
social masculino de beira de estrada, e as festas religiosas na
capela local congregavam toda a pequena comunidade e atraíam
grupos de outras estâncias. Nesses encontros começou
a se formar o folclore do Rio Grande do Sul, na contação
de causos (relatos de façanhas e fatos extraordinários)
em torno do fogo, nas carreiras de cavalos, na troca de experiências
sobre a vida campeira, na absorção e transformação
dos mitos indígenas locais.
O empregado da estância foi, assim, um dos formadores da
figura prototípica do gaúcho, uma figura que na
verdade foi "construída" pela intelectualidade
local no século XX, mas que hoje é a inspiradora
de parte importante da cultura do estado e do seu senso de identidade.
Outra parte do caráter total dessa entidade abstrata, uma
parte que diz respeito à insubmissão e liberdade,
foi emprestada do povo errante de homens sem lei, formado por
índios evadidos das missões, contrabandistas, caçadores
de couros, aventureiros, escravos e bandidos foragidos, que percorriam
em predação os campos de gado livre. Diversos nomes
se deram a essa população, entre eles faeneros,
corambreros, índios vagos, gaudérios, guascas e
gaúchos. Viviam em bandos por conta própria, comendo
carne e bebendo mate e aguardente, vestidos de uma indumentária
simples e adaptada à vida constante sobre um cavalo, enfrentando
dias de intenso frio nos invernos, tendo de dormir via de regra
a céu aberto. Eram sempre um perigo para os estancieiros,
especialmente os mais pobres, e constantemente se envolviam em
rusgas com os espanhóis na fronteira. Suas relações
com os oficiais do reino eram ambíguas. Por um lado competiam
na presa do gado solto, mas também podiam ser contratados
para fazerem o mesmo serviço para um senhor ou prestar
tarefas militares junto a um destacamento oficial. Em 1803 seu
número chegava a quatro mil, numa população
total de 30 mil habitantes.
Até então o interesse dos colonizadores pelo gado
se resumia ao couro, que era de grande importância na vida
cotidiana da colônia. A carne era apenas para uso familiar,
e todo o excedente era desprezado. Calcula-se que o rebanho livre
tenha chegado a cerca de 48 milhões de reses e um milhão
de cavalos. Depois de 1780 o gado livre começou a rarear,
mas então se abriu um novo e amplo mercado para a carne
que era descartada, iniciando a cultura das charqueadas, cujo
produto seguia para o Nordeste a fim de alimentar os escravos
dos engenhos de açúcar.

Século
XIX
Após a Guerra de 1801, um novo acordo, o Tratado de Badajoz,
redefiniria o traçado das fronteiras do estado entregando
as Missões para Portugal, permanecendo Sacramento com a
Espanha. Assim se iniciava um período de organização
administrativa, social e econômica.. Nos poucos centros
urbanos, como Porto Alegre, Rio Grande, Viamão, Pelotas
e Rio Pardo, a sociedade começava a se estruturar. Um inglês,
J. G. Semple Lisle, visitando Rio Grande nessa época, deixou
um testemunho muito favorável sobre o bom acolhimento que
teve e as maneiras prestativas do povo, cuja hospitalidade "excede
tudo o que vi em outras partes do mundo. (…) Poderia encher
um volume com a narração dos atos de bondade com
que fomos cumulados". Porto Alegre tinha cerca de quatro
mil habitantes e sua vida como capital começava a se definir
claramente, além de crescer como força econômica,
assumindo a posição de maior mercado do sul. Seu
comércio se fortalecia com a atividade crescente do porto,
localizado na confluência das duas principais rotas de navegação
interna, e já havia espaço para a abertura da sua
primeira Casa de Ópera, na verdade um barracão de
pau-a-pique, mas que indicava o esboço de um interesse
cultural mais sofisticado. Enquanto isso, Pelotas se firmava como
maior centro da produção de charque e através
dele nascia uma aristocracia urbana, embora fosse se individualizar
de Rio Grande apenas em 1812, tornando-se Freguesia de São
Francisco de Paula (recebendo o nome Pelotas algumas décadas
depois). Em 19 de setembro de 1807 a Capitania ganhou sua autonomia
e em 1809 foi elevada a Capitania Geral, composta por apenas quatro
municípios: Porto Alegre, Santo Antônio da Patrulha,
Rio Grande e Rio Pardo, que dividiam entre si toda a extensão
do estado.
A paz durou pouco. Em 1811 o estado já se via envolvido
em nova disputa internacional, agora despertada pela revolução
iniciada por Artigas em Buenos Aires e que pretendia unificar
todos os estados do Prata. Montevidéu resistiu e pediu
ajuda ao príncipe regente Dom João, e este enviou
tropas gaúchas para combater, sob o comando de Dom Diogo
de Souza, o chamado Exército Pacificador. Na esteira do
avanço militar pelo pampa, fundaram-se cidades como Bagé
e Alegrete. Retirou-se o exército pouco depois, em função
da assinatura de um armistício, apenas para ser substituído
em 1816 por um batalhão ainda maior vindo de Portugal,
composto por veteranos das guerras européias, a fim de
rechaçar a invasão das Missões por Artigas.
As lutas terminaram com a anexação da Banda Oriental,
o atual Uruguai, ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
sob o nome de Província Cisplatina, que na prática
se tornou uma extensão do Rio Grande.
Em
1822, com a Independência do Brasil, a Capitania se tornou
uma Província, foi constituída a primeira Assembléia
eleita, e recebeu seu primeiro governante civil, José Feliciano
Fernandes Pinheiro, autor também da primeira história
geral do estado, os Anais da Província de São Pedro.
Nesta altura a população total chegava a cerca de
90 mil almas. Pelo interior os povoados se multiplicavam, aparecendo
Jaguarão, Passo Fundo, Cruz Alta, Triunfo, Taquari, Santa
Maria. As Missões, porém, já caíam
em ruínas e apenas os velhos índios se lembravam
delas, muitas vezes com saudade. Na capital viviam cerca de 12
mil pessoas. Auguste de Saint-Hilaire, visitando então,
considerou-a bela, com um comércio variado, muitas oficinas
e casas de dois andares, com um povo formoso e vigoroso, mas deplorou
a sujeira das ruas[11]. Sobre a administração da
Província sua opinião foi claramente condenatória:
"Os abusos atingiram o cúmulo, ou melhor, tudo era
abuso. Os diversos poderes confundiam-se e tudo era decidido pelo
dinheiro e pelos favores. O clero era a vergonha para a Igreja
Católica. A magistratura, sem probidade e sem honra (…)
Os empregos multiplicavam-se ao infinito, as rendas do Estado
eram dissipadas pelos empregados e pelos afilhados, as tropas
não recebiam seus soldos; os impostos eram ridiculamente
repartidos; todos os empregados desperdiçavam os bens públicos,
o despotismo dos subalternos chegou ao cúmulo, em tudo
o arbítrio e a fraqueza andam a par da violência"
O ano de 1824 foi marcado pelo início da colonização
alemã no estado, uma iniciativa do governo imperial para
povoamento do sul, que visava também a dignificar o trabalho
manual, formar uma classe média independente dos latifundiários,
engrossar as forças de defesa do território e dinamizar
o abastecimento das cidades. Chegando em Porto Alegre, os imigrantes
aguardavam até a definição de suas terras
e a concessão de provisões iniciais. Nesta cidade
grupos remanescentes deram origem ao bairro Navegantes. O grosso
do contingente, porém, seguiu para a região ao norte
da capital, concentrando-se em torno do rio dos Sinos, formando
os núcleos iniciais de cidades como Novo Hamburgo e São
Leopoldo e desbravando as matas em torno para instalação
de propriedades rurais. As levas de imigrantes germânicos
continuariam a chegar ao longo de todo o século XIX, totalizando
mais de 40 mil indivíduos, e os centros de povoamento que
eles fundaram desenvolveram economias prósperas e culturas
regionais características.
As guerras, porém, continuavam. O estado foi a base de
operações durante a Guerra Cisplatina, que eclodiu
em 1825 pretendendo recuperar o território da Província
Cisplatina para as Províncias Unidas do Rio da Prata, havendo
escaramuças em território gaúcho e um grande
confronto, a Batalha do Passo do Rosário, tida como a maior
batalha campal já ocorrida no Brasil. Fructuoso Rivera
chegou a reconquistar para as Províncias Unidas os Sete
Povos das Missões, mas com a assinatura da Convenção
Preliminar de Paz, em 1828, as Missões foram devolvidas
- mas não sem antes serem pilhadas pelo exército
em retirada - e o Brasil acabou por ter de entregar a Cisplatina
por força do Tratado do Rio de Janeiro, que criou a República
Oriental do Uruguai.

Revolução
Farroupilha
Em 1835 seria a vez da Revolução Farroupilha, um
dos mais dramáticos e sangrentos episódios da história
gaúcha, que durou dez anos e onde morreram de 3 a 5 mil
pessoas. Explodiu a revolta como consequência do declínio
na economia estadual, em virtude da sobretaxa do charque, a base
da economia, mais o excesso de outros impostos, a ineficiência
do governo da Província e sucessivas perdas agrícolas
por pragas naturais e calote oficial. Na onda de insatisfação
contra o governo imperial, a quem culpavam de fazer uma política
nefasta ao estado, em 20 de setembro de 1835 rebeldes em Porto
Alegre puseram a fugir o presidente da Província, tomando
a cidade. Logo o movimento adquiriu feição separatista
e republicana. A reação do governo central não
tardou. Porto Alegre foi recapturada logo mas o interior deu sérios
trabalhos aos imperiais até que em 1845, quando comandados
pelo Visconde de Caxias, prevaleceram, e foi assinada a Paz do
Poncho Verde, quando foi dada uma anistia geral aos revoltosos,
pagas indenizações aos chefes militares e libertos
os escravos sobreviventes que haviam lutado.

Um dos canhões usados pelos Farroupilhas.
Acervo do Museu Júlio de Castilhos.
Em
determinado momento esta revolta, que chegou a resultar na proclamação
da efêmera República Rio-Grandense e dominar cerca
de metade do estado, propagando-se até Santa Catarina,
mobilizou dois terços da força militar nacional,
enviada para sufocá-la. Nesse intervalo a economia da província,
já fragilizada, entrou em colapso. Mesmo tendo decretado
medidas para melhoria no setor produtivo, os revolucionários
nunca conseguiram organizar de fato a administração
da sua nova República, e os governantes imperiais não
tiveram melhor sucesso, sucedendo-se 19 deles em apenas dez anos.
Apesar da derrota final dos farroupilhas, a guerra serviu para
acentuar o espírito regionalista com a consolidação
do poder dos estancieiros, alterou o equilíbrio de forças
nas relações do Rio Grande do Sul com o Império
e se transformou num símbolo de identidade na construção
da memória do estado.

Crescimento
e novos conflitos
Ainda
que gravemente traumatizado pela guerra, com suas perdas humanas
e materiais e suas rupturas nas redes de confiança mútua
que cimentam a vida em sociedade, a recuperação
do estado foi bastante rápida. A situação
nacional era favorável. O governo de Dom Pedro II pela
primeira vez trabalhava em superávit, e o monarca desejava
pacificar os ânimos locais. Com a restauração
das instituições incentivou-se a instalação
de Câmaras em várias cidades e a administração
da justiça se normalizou. As maiores urbanizações
receberam verbas para melhorar a infraestrutura e os serviços
públicos, a lagoa dos Patos foi sinalizada, se formaram
várias associações de comerciantes e produtores,
novas levas de imigrantes alemães foram chegando, a mineração
do carvão se desenvolvia e já se pensava em estradas
de ferro para escoar a produção estadual e circular
pessoas. Em 1851 o estado recebeu um desenho muito próximo
do atual, com a retificação das fronteiras com a
República do Uruguai. Em 1854 já havia condições
de se fundar o primeiro banco regional, o Banco da Província.
A
repercussão cultural desse surto de progresso também
foi significativa. Em 1858 Porto Alegre inaugurava uma grande
casa de ópera, o Theatro São Pedro, decorado com
grande riqueza. Os saraus literários se tornavam uma moda,
e na capital se fundava em 1868 a Sociedade Parthenon Litterario,
reunindo a nata da intelectualidade gaúcha. Nesse círculo
brilharam os primeiros literatos, educadores, políticos,
doutores, artistas e poetas de vulto do estado, como Luciana de
Abreu, Caldre e Fião, Múcio Teixeira, Apolinário
Porto Alegre, Carlos von Koseritz e vários outros.
A instalação dos novos imigrantes alemães,
que continuavam a chegar, porém, se fazia com mais dificuldade.
Mudanças nas leis estaduais tornaram a aquisição
de terra onerosa para os colonos e impuseram uma hipoteca compulsória
sobre as terras até sua quitação, e iniciativas
privadas de atração de novos alemães nem
sempre foram coroadas de sucesso. Também se registraram
confrontos sangrentos com remanescentes dos povos indígenas
nas áreas desbravadas, e eventos de violência entre
os próprios alemães, como a Revolta dos Muckers,
de caráter messiânico. Mesmo assim, a colonização
como um todo prosperou, trouxe as culturas da batata, dos cítricos,
do fumo, introduziu a cerveja, promoveu a industrialização,
o artesanato, a educação privada e a policultura,
e fundou uma série de outras cidades, como Estrela, São
Gabriel, Taquara, Teutônia e Santa Cruz do Sul, que logo
veio a ser o maior pólo produtor de fumo. Além disso
os alemães logo se organizaram em sociedades culturais
onde se praticava música erudita e se encenavam peças
de teatro, e se notabilizaram por sua luta pela liberdade religiosa
e pela abolição da escravatura.
Em 1864, nova guerra. Desta feita contra o Paraguai. O Brasil
fora invadido por Solano Lopez e o estado enviou mais de dez mil
homens para a frente de batalha. A Guerra do Paraguai afetou diretamente
apenas três cidades gaúchas: São Borja, Itaqui
e Uruguaiana, que foram atacadas várias vezes, mas depois
de um ano o conflito direto se moveu para outros locais, e o estado
como um todo foi relativamente pouco abalado. Mas graças
à atuação destacada do gaúcho General
Osório no conflito, o prestígio do estado cresceu
sensivelmente. Ele foi um dos fundadores do Partido Liberal no
estado, que iniciou a partir de 1872 uma marcha ascendente até
enfim dominar a situação política gaúcha.
Com sua morte abriu-se espaço para outra personalidade
brilhante, o de início liberal mas depois monarquista Gaspar
da Silveira Martins, criador do jornal A Reforma e ocupante de
vários cargos públicos, incluindo o de Presidente
da Província. Ele seria chamado de "o dono do Rio
Grande", tal sua influência.
A
partir de 1874 o trem já circulava entre a capital e São
Leopoldo, dando a partida para a modernização dos
meios de transporte no Rio Grande do Sul.[3] O ando de 1875 também
foi um ano importante, pois começaram a chegar as primeiras
levas de imigrantes da Itália, em novo projeto oficial
de colonização, ora da Serra do Nordeste, ao norte
da área ocupada pelos alemães. Apesar das previsíveis
dificuldades de instalação numa região ainda
totalmente virgem, e do limitado apoio governamental aos colonos,
o empreendimento foi exitoso, e até o final do século
chegariam ao estado cerca de 84 mil italianos, sem contar grupos
menores de judeus, polacos, austríacos e outras etnias.
Através dessa nova onda imigratória se fundaram
cidades como Caxias do Sul, Antônio Prado, Nova Pádua,
Bento Gonçalves, Nova Trento e Garibaldi, e se introduziram
produções novas como a uva, os embutidos e o vinho.
Como acontecera com os alemães, criou-se uma cultura regional
muito próspera e muito característica, até
com dialeto, hábitos e arquitetura próprios. O estado
atravessava uma fase de real florescimento, já havia cerca
de 100 indústrias em atividade no estado, que evoluíram
a partir de artesanatos e manufaturas, e em 1875 a sociedade se
sentiu capaz de exibir publicamente o resultado de seu esforço
numa primeira exposição geral, montada no Arsenal
de Guerra de Porto Alegre. No catálogo da mostra constavam
558 produtos, desde roupas, maquinário pesado e instrumentos
de precisão até relógios e obras de arte.
O evento foi um sucesso absoluto, saudado como "um festim
do trabalho" pela imprensa da época.
Mesmo
com o crescimento de várias cidades, principalmente Porto
Alegre, Pelotas ainda ocupava a posição de predomínio
econômico no estado, quando o ciclo do charque entrava em
seu apogeu. Cerca de 300 mil reses eram abatidas anualmente nas
charqueadas da região, gerando grandes lucros para a elite
local. O charque se transformava em pinturas, louças finas,
roupas da última moda francesa, cristais, móveis
de luxo, casas elegantes. Nos jornais os cronistas se orgulhavam
de em sua cidade nem um único edifício público
ter sido pago pelo governo estadual, sendo tudo financiado pelos
locais. Em visita à cidade, o Conde D'Eu observou:
| "É Pelotas a cidade predileta
do que eu chamo de aristocracia rio-grandense. Aqui é
que o estancieiro, o gaúcho cansado de criar bois e
domar cavalos no interior da Campanha, vem gozar as onças
e os patacões que ajuntou em tal mister". |
Enquanto esse ciclo econômico continuava, na política
a situação começava a mudar. Em 1881 voltou
à sua terra natal um grupo de jovens liderado por Júlio
de Castilhos, depois de temporada de estudos em São Paulo,
onde entraram em contato com ativos intelectuais e com a filosofia
positivista. A campanha abolicionista ganhava as ruas e Castilhos
assumiu imediatamente a dianteira do movimento, ao mesmo tempo
em que criava um Partido Republicano diferenciado, o Partido Republicano
Rio-grandense, inspirado no Positivismo, cujo porta-voz foi o
influente jornal A Federação. A partir de 1884,
contando com a participação de grandes segmentos
da sociedade, conseguiram iniciar um processo gradativo de libertação
dos cerca de oito mil escravos do estado, quatro anos antes da
proclamação da Lei Áurea. Os libertos, contudo,
não encontrariam facilmente uma colocação
no mercado de trabalho, reunindo-se em guetos e vilas, sofrendo
privações e discriminações de toda
ordem, e obtendo apenas tarefas de baixa remuneração.
Na
alvorada da República Júlio de Castilhos assumiu
a secretaria do governo e em seguida participou no Rio da elaboração
da nova Constituição. Voltando ao estado em 1891,
passou a trabalhar na Constituição Estadual. Aprovada
em 14 de julho, no mesmo dia se realizou a primeira eleição
para uma Presidência constitucional, saindo-se Castilhos
vencedor com 100% dos votos. Mas as rivalidades políticas
se acirraram a um ponto sem retorno. O Partido Federalista (antigo
Partido Liberal) lutava pela centralização e o parlamentarismo;
o Partido Republicano pelo sistema presidencialista e pela autonomia
provincial. Depois de várias mudanças de governo
deflagrou-se uma nova guerra civil em 1893, a Revolução
Federalista, liderada por Silveira Martins, antigo adversário
de Castilhos. Se na Revolução Farroupilha ainda
se viram cenas de nobreza, honra e altruísmo, ao longo
da Revolução Federalista, que desejava derrubar
Castilhos, de novo no poder, generalizou-se a crueldade e a vilania.
Décio Freitas diz que foi a mais violenta das guerras civis
em toda a América Latina, e outros que escreveram sobre
ela não cessam de reiterar expressões de horror.
Durou mais de dois anos e ceifou mais de dez mil vidas, imprimindo
uma nódoa de ódio fratricida que até hoje
envergonha a memória do estado.
Com a derrota dos rebeldes em 1895, Júlio de Castilhos
concentrou em si o controle absoluto do estado. A oposição
se viu completamente desarticulada e os principais líderes
dos revoltosos ou estavam mortos ou partiram para o exílio,
sendo acompanhados por cerca de 10 mil correligionários.
Então se iniciou uma longa dinastia política que
iria governar o estado por décadas, e influenciaria todo
o Brasil através de um de seus discípulos, Getúlio
Vargas. Castilhos controlava toda a máquina administrativa
estadual através de uma rede de subordinados fiéis,
interferindo diretamente na vida dos municípios. Adepto
entusiasta do Positivismo, orientou sua administração
por suas idéias de ordem, moralidade, civilização
e progresso, mas dava pouco valor ao voto, sendo repetidamente
acusado de fraudar as eleições. Era visto por seu
círculo como um iluminado, e mesmo exercendo um poder ditatorial,
relevou antigas ofensas e não perseguiu seus desafetos,
nem obstruiu o trabalho da imprensa, permitindo considerável
liberdade de expressão. Seu governo foi elogiado até
por seus oponentes, como Venceslau Escobar, que admirou-se de
sua "largueza de descortino, realizando e projetando medidas
progressistas". De fato com ele o estado entrou definitivamente
na modernidade, atualizando uma herança administrativa
colonial obsoleta que até então fora baseada mais
no improviso. Sua primeira preocupação foi reorganizar
a Justiça, os transportes e as comunicações.
Apoiou os imigrantes e fomentou o desenvolvimento do interior.
Em 1898 deixou o governo assegurando a continuidade do seu programa
através da eleição de Borges de Medeiros
num pleito sem adversários.

Século
XX
Modernização
Quando
Borges subiu ao poder o Rio Grande do Sul já tinha cerca
de um milhão de habitantes. Castilhos ainda regia a política
estadual como chefe do PRR, e indicou Borges mais uma vez para
Presidente ao fim do primeiro mandato. Enquanto Castilhos era
uma figura carismática, Borges construiu uma imagem de
discrição e modéstia, não apreciava
ostentação nem publicidade pessoal, mas manteve
da mesma forma que seu mentor uma rédea curta no sistema
de poder e foi outro eficiente administrador, cujo lema era "nenhuma
despesa sem receita". Reorganizou o sistema de impostos e
terminou a reforma do Judiciário iniciada por Castilhos,
incentivou a produção dos imigrantes e a pequena
indústria, apoiou a melhoria nos serviços municipais
expandindo redes de água, luz e esgoto, estatizou ferrovias
e o porto de Rio Grande. Manteve uma relação distante
com o governo federal, e por isso o estado acabou sendo prejudicado
com um sempre magro repasse de verbas.
Quando ia concorrer a um terceiro mandato a oposição
apresentou um adversário de peso, e Borges teve de encontrar
um outro nome, Carlos Barbosa, que acabou vencedor, fazendo um
governo de continuidade. Na eleição seguinte Borges
retornou ao governo, conseguindo se reeleger uma quarta vez, e
realizou mais uma administração importante. Enfrentou
uma das maiores ondas de greves da história do estado,
mas foi conciliador com os grevistas. Aumentou os salários
dos funcionários públicos e decretou medidas protecionistas
para produtos essenciais como o feijão, arroz e banha.
Mas teve de pedir um substancial
empréstimo
externo para financiar seu intenso programa de obras públicas.
Em Porto Alegre ele foi um dos motores de uma febre construtiva
que reformulou o perfil da paisagem urbana, sendo erguidos muitos
prédios públicos de grande luxo e realizadas várias
obras de urbanização, já que a cidade deveria
ser "o cartão de visitas do Rio Grande". Diversas
cidades do interior nessa época já ultrapassavam
os dez mil habitantes onde se multiplicavam os negócios
e a sociedade formava uma nova estratificação. Bagé,
Uruguaiana, Rio Pardo, bem como a capital há mais tempo,
já imitavam os hábitos requintados dos pelotenses,
desfrutando de cafés, salas de cinema e teatro, e lazeres
diversificados.
No início do século o estado alcançava a
terceira posição na economia nacional. O censo de
1900 acusou 1 149 070 habitantes; 67,3% de analfabetos; 43% dos
empregos eram na área rural. Do total de habitantes, quase
300 mil eram trabalhadores; destes 56 mil eram mulheres, 49 mil
eram artesãos ou possuíam um ofício, 31 mil
estavam no comércio. Havia também 3165 "capitalistas",
como chamavam os grandes industriais e comerciantes, e 4455 funcionários
públicos. Mas as demandas do progresso em ritmo acelerado
resultaram em que a vida das classes operárias estava longe
de ser tranquila. Mesmo que a industrialização em
vários setores já tivesse facilitado as coisas,
ainda era primitiva e exigia muito trabalho pesado. Os salários
eram baixos e mal cobriam o sustento mais básico; os ambientes
fabris não
primavam
pelo conforto e salubridade; ao contrário, segundo os padrões
atuais, eram locais de trabalho escravo e antros de disseminação
de doenças. Em muitas fábricas a disciplina ainda
era imposta a chicote mesmo para trabalhadores brancos; funcionários
eram submetidos a revistas periódicas e pagavam pesadas
multas por infrações mínimas; crianças
e mulheres faziam usualmente a mesma jornada que os homens adultos,
que podia chegar a ter 15 horas. No campo a carga de trabalho
era ainda mais pesada - o expediente durava na prática
todo o dia, todos os dias do ano, envolvendo toda a família,
e muitas vezes com resultados incertos. Em vista dessas condições
opressivas, desde muito cedo os operários urbanos e os
colonos rurais se viram obrigados a encontrar garantias e assistência
por si mesmos, por meio das associações de mútuo
socorro e sindicatos, que fortaleceram a classe, dando-lhe oportunidade
de articulação e expressão pública.
Começava, junto com a modernização, a proletarização
da força trabalhadora, e com ela não admira a quantidade
de greves e manifestações populares contra as políticas
governamentais, exigindo melhores condições, que
começaram a pipocar por todas as partes. De 1890 a 1919
os operários fizeram 73 greves locais e três greves
gerais, em anos de explosiva organização, quando
predominavam idéias anarquistas e socialistas. Exercendo
uma pressão efetiva difícil de ignorar, as greves
tiveram muitas vezes resultados favoráveis aos trabalhadores.
Nesse cenário em rápida transformação,
a antiga oligarquia pastoril, que em boa parte enriquecera enormemente
e fora enobrecida no império, e ainda mantinha no fim do
século XIX o monopólio dos meios de produção
mais importantes, diante da crescente concentração
das atividades comerciais e industriais nos centros urbanos, ambas
em franca ascensão, viu-se rapidamente perdendo dinheiro,
espaço político e influência. O resultado
foi a última das grandes guerras civis do estado, a Revolução
de 1923, chamada de A Libertadora, que procurou acabar com o continuísmo
de Borges de Medeiros. O tumulto mal chegou às portas das
cidades, limitou-se ao campo, e foi um confronto desigual. De
um lado os revoltosos, desorganizados, em menor número
e com munição precária, usando armas do tempo
da Revolução Farroupilha, contra a Brigada Militar,
bem treinada e equipada com metralhadoras e grande volume de soldados.
Os revoltosos perderam a questão e Borges ficou por um
quinto mandato, mas teve de renunciar a uma sexta reeleição.
O governo federal não se envolveu, a não ser como
intermediário nas conversações que levaram
à Paz de Pedras Altas, selada em 14 de dezembro, que foi
um acordo bastante equânime e conciliador. Possibilitou
um entendimento real entre as facções maragato (libertadores,
assisistas) e chimango (republicanos, borgistas). Do lado da Federação,
houve avanços e recuos no setor econômico. De início
o governo tentou aplacar os estancieiros suspendendo a importação
de charque platino, concorrente mais barato, mas logo depois iria
proibir o escoamento de produtos brasileiros através de
portos estrangeiros, o que foi mais um golpe para as charqueadas
da fronteira oeste, que usavam o porto de Montevidéu. A
exportação de charque caiu pela metade, o mesmo
acontecendo com a carne resfriada. A economia gaúcha no
final desses primeiros trinta anos do século XX só
foi salva pelos ganhos crescentes da indústria e do comércio,
capazes inclusive de sustentar novos avanços no campo cultural.
Logo no ano seguinte um outro foco de agitação se
revelaria na fronteira oeste, por ocasião da formação
da Coluna Prestes, enquanto o governo estadual enviava 1200 soldados
para auxiliar no combate aos revoltosos tenentistas em São
Paulo. Esses movimentos, contudo, tiveram bem menor repercussão
no Rio Grande do Sul e se desenrolaram principalmente em outros
estados.

Cultura
Os
primeiros grandes eventos culturais do século XX aconteceram
em 1901: a fundação da Academia Rio-Grandense de
Letras agregando muitos jornalistas, poetas e escritores, como
Caldas Júnior, Marcelo Gama, Alcides Maia e Mário
Totta, e a realização de outra exposição
geral em Porto Alegre, com 3 mil expositores exibindo as tecnologias
mais modernas e os produtos que moviam a economia. Logo em seguida
se fundou o primeiro museu do estado, o Museu Júlio de
Castilhos, criado em 1903. No mesmo ano ocorreu o primeiro evento
inteiramente dedicado às artes, o Salão de 1903,
promovido pela Gazeta do Commercio. Este salão, segundo
Athos Damasceno, foi "o primeiro certame a dar às
artes do Rio Grande do Sul um estatuto de autonomia (…)
legitimando-as como objeto de aprovação e distinção
social". Outro marco foi a fundação de várias
faculdades em Porto Alegre - Medicina, Química, Farmácia,
Direito e Engenharia - e mais do Instituto Livre de Belas Artes,
incluindo cursos de música e artes plásticas, que
concentraria a produção de arte na capital e seria
no estado inteiro praticamente a única referência
institucional significativa até meados da década
de 1950 nos campos do estudo, ensino e produção
de arte Pelo Instituto passaram alguns do nomes mais notórios
da pintura local desse início de século, como Pedro
Weingärtner, membro de bancas de avaliação,
junto com Oscar Boeira, Libindo Ferrás, João Fahrion
e alguns mestres estrangeiros, professores contratados. Também
despontaram mais nomes de peso na literatura e na poesia, como
Augusto Meyer, Dyonélio Machado e Eduardo Guimarães,
além de a atividade da Biblioteca Pública do Estado,
reinaugurada com grandes ampliações em 1922, contribuir
significativamente para dinamizar as letras locais.
Na
música se destacaram as atividades do Club Haydn de Porto
Alegre, organizando muitos recitais divulgando autores europeus
e brasileiros, e complementando as temporadas do Theatro São
Pedro, onde se apresentaram astros como Arthur Rubinstein e Magda
Tagliaferro e se encenaram as primeiras óperas gaúchas,
Carmela, de José de Araújo Viana, e Sandro, de Murillo
Furtado. Companhias teatrais e de ópera circulavam com
frequência pelos teatros do interior, pequenos conjuntos
vocais e instrumentais de repertório erudito já
existiam em várias cidades, e se percebia a consolidação
de expressões musicais regionalistas e populares dos hispano-portugueses,
dos negros e dos descendentes de imigrantes em suas colônias.
Também é de destacar o ensino qualificado ministrado
pelo Instituto de Belas Artes, onde atuavam o mesmo Viana junto
com Tasso Corrêa, Olinto de Oliveira e alguns outros mestres.
O cinema tornava-se uma moda muito popular e o esporte já
contava com clubes como o Grêmio e o Internacional, que
seriam grandes forças no futebol brasileiro anos mais tarde.

Anos
30 a 60
Em 1928 Getúlio Vargas sucedeu a Borges de Medeiros, e
foi mais um castilhista no poder. Buscou o apoio dos estancieiros
representando a classe junto ao governo federal, e protegendo
os sindicatos que eles estavam organizando. Descobrindo nos custos
de transporte o maior problema, ampliou as ferrovias e incentivou
a primeira companhia aérea do estado, a futura VARIG. Para
facilitar o crédito, fundou o Banco do Estado do Rio Grande
do Sul. Sua maior proeza, contudo, foi a dissipação
de antigas rivalidades políticas que afligiam o Rio Grande
do Sul desde muito tempo. O fruto disso foi a construção
da Aliança Liberal, da qual foi o candidato às eleições
nacionais em 1930, vencendo a competição, contudo,
Júlio Prestes. Mas este não chegaria a tomar posse,
sendo deposto pela Revolução de 30, que guindou
Getúlio à Presidência com decisiva participação
dos gaúchos.
Getúlio
Vargas assumiu o governo levando sua herança política
castilhista e a experiência que tivera com os sindicatos
gaúchos, e diz-se que foi uma fase de "gauchização"
da política do Brasil, mas temperada com os ideais tenentistas.
Decretou a intervenção nos estados e através
da Constituição de 1934 introduziu reformas importantes
como o voto secreto e obrigatório para maiores de 18 anos;
o voto feminino; previu a criação da Justiça
do Trabalho e da Justiça Eleitoral, entre outras coisas.
Seu governo instituiu uma versão do castilhismo conhecida
como populismo, pois buscou atrair as classes populares na construção
de uma nova sociedade. Tinha bons propósitos, mas eles
não bastaram para que a oposição se calasse,
e em pouco tempo movimentos se organizaram em vários pontos
do país para removê-lo do Catete. No Rio Grande do
Sul a oposição encontrou forças em José
Antônio Flores da Cunha, o interventor indicado pelo próprio
Vargas, e em intelectuais como Dyonélio Machado, um dos
líderes locais da Aliança Libertadora Nacional,
de esquerda. A reação de Vargas foi dura - Flores
da Cunha teve de se exilar e os membros da ALN foram reprimidos
violentamente, sendo usada até a tortura.
Por outro lado, diversas reformas impostas pelo governo federal
não estavam sendo cumpridas no estado, pois a elite industrial
e comercial resistia a abrir mão de direitos tradicionais.
Novas greves foram organizadas, as entidades operárias
romperam relações com o Ministério do Trabalho,
e o clima se tornou tenso novamente nos círculos da produção..
Também a política estadual continuava convulsionada,
pois nesse momento o Brasil, amedrontado com a "ameaça
bolchevique", se encontrava largamente influenciado pelos
regimes totalitários europeus como o Nazismo e o Fascismo.
A repercussão disso no estado foi especialmente intensa
pois os descendentes dos imigrantes italianos e alemães
se haviam identificado com o que se passava em seus países
ancestrais, e nessa altura esses grupos já constituíam
grandes e fortes colônias, respondendo por 50% da população
e da renda totais do estado, e alguns de seus representantes atingiam
posições de eminência no empresariado e na
política, como o Intendente de Porto Alegre, Alberto Bins,
de origem alemã, que em declarações públicas
expressou sua simpatia pelo Nazismo. Os alemães logo passaram
a ostentar suas preferências políticas em passeatas
vestidos de trajes militares e carregando bandeiras com a suástica,
enquanto que os italianos se ufanavam de sua etnia e conquistas
incentivados pelo próprio Mussolini. Outros ainda aderiam
ao Integralismo, de caráter similar.
Apesar
da agitação, a economia havia se recuperado bastante
bem depois da crise econômica mundial de 1929. Na verdade
ela relativamente pouco havia afetado o estado, salvo seu setor
financeiro, com a falência de bancos importantes como o
Banco Pelotense, o que selou o início de um longo período
de estagnação econômica para Pelotas e outras
cidades. Mas nesta época o Rio Grande do Sul abastecia
significativa uma parcela do mercado nacional com sua produção
agropecuária. Tanto é que em 1935, comemorando o
centenário da Revolução Farroupilha, foi
organizada outra grande exposição geral em Porto
Alegre, a maior que a cidade já vira. Além de apresentar
os frutos da economia gaúcha para a sociedade, teve uma
seção cultural e foi importante também por
ter introduzido no sul a arquitetura modernista, que doravante
iria constituir o principal estilo arquitetônico empregado
no estado até os anos 1980, revolucionando as concepções
do urbanismo gaúcho.
Os movimentos de direita culminaram em 1937 com a criação
do Estado Novo através de novo golpe de estado de Getúlio,
que impôs uma Constituição fascista. A euforia
dos descendentes de imigrantes, que se reuniram em passeatas por
vários pontos do estado para aclamar o novo regime, logo
se desfez, pois Getúlio começou a orientar a política
em direção à construção de
um senso de identidade nacional, e assim todos os estrangeirismos
começaram a ser severamente censurados, iniciando um tempo
de perseguições e repressão nas colônias,
e em vez de colaboradores no processo de crescimento e povoação
os imigrantes passaram a ser vistos como potenciais inimigos da
pátria. O processo chegou ao extremo com a entrada do Brasil
na II Guerra Mundial contra os países do Eixo, com pesadas
consequências econômicas e sociais para a região
de imigração, incluindo as colônias da capital.
Na economia a virada foi em direção à unificação
do mercado nacional, com perda de dinamismo regional. Num momento
em que algumas indústrias gaúchas já se projetavam
nacionalmente, como a Eberle, a Renner, a Berta e a Wallig, reversamente
se tornava mais fácil a penetração no mercado
gaúcho de concorrentes nacionais. Ao mesmo tempo desaqueciam
as economias coloniais baseadas em empreendimentos familiares,
iniciando um processo de desvalorização econômica
dos artesanatos e manufaturas tradicionais, das indústrias
caseiras e das cooperativas. Com esse impacto negativo sobre as
colônias também iniciou o êxodo rural no estado
e apareceram as primeiras favelas em Porto Alegre. Entretanto,
o governo estadual tentou minimizar os problemas através
de medidas protecionistas sobre os produtos exportáveis,
investindo no setor de transportes e simpatizando com as questões
do setor produtivo como um todo, além de criar uma rede
de centros de saúde.
Com
o fim da II Guerra e com a concomitante deposição
de Getúlio, as instituições democráticas
começaram a se restabelecer, e em 1947 foi eleito um novo
governador, Walter Jobim, comprometido com a proposta de expandir
a eletrificação das colônias para evitar o
êxodo rural. Para isso construiu diversas centrais de energia,
num programa que teve continuidade com seus sucessores. Em sua
gestão foi aprovada uma nova Constituição
Estadual, ampliando os poderes do Legislativo gaúcho. Getúlio
fora deposto mas manteve seu prestígio, e logo se tornou
o líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que teve
no estado uma de suas maiores bases eleitorais. Assim o apelo
às massas e ao nacionalismo, e o combate às tendências
de esquerda, continuavam vivos. No estado a política se
dividia entre o Partido Libertador, porta-voz da elite pecuarista,
o Partido Social Democrático, defendendo os interesses
da burguesia agroindustrial, e o PTB, atuando pelo trabalhismo,
a nova versão do populismo getulista, que tinha em Alberto
Pasqualini seu mentor local. Getúlio acabou sendo reeleito
para a Presidência da República, consagrando o trabalhismo
como linha de governo.
O suicídio de Getúlio em 1954 foi intensamente sentido
no Rio Grande do Sul, havendo enormes manifestações
de rua. Mas sua época parecia ter mesmo passado, pois poucas
semanas após o trágico evento os trabalhistas perdiam
a eleição para governador, assumindo Ildo Meneghetti
como um fenômeno eleitoral até então sem precedentes
na política gaúcha. Descendente de italianos, sua
ascensão ao poder máximo do estado foi um claro
indicador de que a discriminação que os imigrantes
enfrentaram durante os anos anteriores havia sido superada. Já
fora duas vezes prefeito de Porto Alegre, onde deixara obra sólida
priorizando a habitação popular. Mas como governador
não conseguiu cumprir muitas metas. O estado estava entrando
em uma crise econômica onde, apesar do crescimento do número
de indústrias e da introdução de novas e
lucrativas lavouras como a soja, deixava de ser importador de
mão-de-obra para ser exportador. E a situação
de Meneghetti como opositor do novo presidente Juscelino Kubitschek
deixou o estado à margem dos investimentos federais em
pleno Desenvolvimentismo. Sucedeu-lhe Leonel Brizola, que seguiu
pela tradição trabalhista. Seu governo foi pautado
por um Plano de Obras, que tinha como objetivo melhorar a infraestrutura
e ampliar a rede escolar. Encampou empresas estrangeiras, fundou
a Caixa Econômica Estadual do Rio Grande do Sul, reequipou
a polícia, estimulou uma reforma agrária de âmbito
estadual, criando o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária,
e estimulou a criação de empresas de porte como
a Refinaria Alberto Pasqualini e a Aços Finos Piratini.
Sua atuação mais dramática foi o lançamento
da campanha da Legalidade, em 1961, que levou multidões
para as ruas, quando o Palácio Piratini, onde ele se entrincheirara,
foi votado ao bombardeio pelas chefias militares federais, o que,
devido à desobediência dos soldados gaúchos,
acabou não acontecendo.

A
reconstrução do "gaúcho" e os vários
gaúchos
Há que se tratar com especial interesse a reabilitação
da figura do gaúcho, um dos mais fortes símbolos
da identidade estadual. Entre o fim dos anos 40 e o início
dos 50 se iniciara uma fase de novo interesse pelo passado, em
vista do rápido desaparecimento das tradições
campeiras com o progresso econômico e a internacionalização
dos costumes. Nessa época apareceram Barbosa Lessa e Paixão
Cortes como figuras de proa nesse processo, iniciando uma série
de pesquisas antropológicas quando essa ciência mal
era reconhecida no estado. Segundo Cortes
"Era
o auge do pan-americanismo. Para se ter uma idéia,
se um camponês saísse de casa em direção
à cidade, carregava uma muda de roupas para substituir
as bombachas quando fosse chegar. Se não fizesse
isso era visto com maus olhos. Era considerado um cidadão
de segunda classe. O próprio chimarrão, na
cidade, era consumido apenas dentro da residência
e longe das janelas. Enquanto o modernismo estava na ordem
do dia, um grupo de jovens secundaristas saía na
busca de suas raízes. (…) O gaúcho sempre
existiu como o tal centauro dos pampas, o monarca das coxilhas
ligado a um fato épico, histórico e político,
e não mais do que isso. Mas esta é uma figura
poética que surgiu para se transformar em um símbolo.
E símbolos são importantes para que se mantenha
a identidade do povo. Só que esta imagem já
existia. O que fizemos foi recuperá-la e dar-lhe
uma outra dimensão. Até então, o aspecto
social e recreativo era totalmente desconhecido. Era "Boi
Barroso", "Prenda Minha" e estamos conversados.
Encerrou-se o repertório musical e coreográfico
do Rio Grande. Havia os registros do Cezimbra Jacques e
do Simões Lopes Neto, tinha ali "O Balaio",
por exemplo. Mas como se dança? Como se canta?". |
Essa busca, porém, estava em sua origem mais ligada a um
desejo de reconstrução histórica do que de
interpretação, e paradoxalmente iniciou no ambiente
urbano. Em 24 de abril de 1948 aqueles folcloristas, junto com
um grupo de jovens estudantes, fundaram em Porto Alegre o Centro
de Tradições Gaúchas 35. Ali tomavam mate
e imitavam os hábitos do interior, entre eles o da charla
(conversa) que os peões entretêm nos galpões
das estâncias. Barbosa Lessa recorda que
"não
se tinha muita pretensão de revolucionar o mundo,
embora nós não concordássemos com aquele
tipo de civilização que nos era imposto de
todas as formas (…) não pretendíamos
escrever sobre o gaúcho ou sobre o galpão:
desde o primeiro momento, encarnamos em nós mesmos
a figura do gaúcho, vestindo e falando à moda
galponeira, e nos sentíamos donos do mundo quando
nos reuníamos, sábado à tarde, em torno
do fogo-de-chão". |
Desde
lá o movimento tradicionalista foi lentamente ganhado visibilidade
e se constituindo num verdadeiro estilo de vida para muitas pessoas
mesmo nos núcleos urbanos. Nos anos 60 apareceram artigos
e palestras sobre o assunto, e também a figura de Teixeirinha,
um fenômeno de popularidade. Em 1971 se realizou a primeira
Califórnia da Canção Nativa, que se ramificou
em centenas de outros festivais similares pelo estado, onde aspectos
da música pop também foram assimilados. Esses festivais
deram espaço para expressões politicamente engajadas
que levaram a uma integração entre regionalismos
campeiros de vários países do Cone Sul, cujas histórias
tiveram muitos pontos de contato. Mas foi a partir da década
de 1980 que o ritmo desse processo cresceu enormemente, a ponto
de ganhar respaldo da cultura oficial, atrair simpatizantes de
outras origens culturais além da campeira como os alemães
e italianos, e inspirar a criação de centenas de
CTGs, além das fronteiras estaduais, até no exterior.
Em 1980 cerca de novecentos mil gaúchos (11,5% do total)
moravam fora do Rio Grande do Sul, levando as tradições
locais com eles. É certo também que divulgação
tão maciça e muitas vezes acriteriosa e desinformada
deu margem à formação de estereótipos
mistificantes e hibridismos espúrios, que vêm sendo
questionados tanto na pesquisa acadêmica como na cultura
popular, muitas vezes até de forma humorística.
O gaúcho "típico", finalmente, não
é a única imagem do gaúcho real contemporâneo.
As outras inúmeras etnias e segmentos culturais que compuseram
a sociedade gaúcha conseguiram em anos recentes apreciável
nível de articulação para a conquista de
seu espaço. Nas regiões italiana e alemã
as festividades folclóricas são inúmeras,
originando divisas, teses acadêmicas, filmografia e literatura
ficcional, além de um sentimento de coesão social
legítimo em função da autenticidade do testemunho
histórico onde se baseiam essas interpretações
modernas do passado. É verdade que as
tradições
perderam muito diante da sua transformação em produto
à venda e da modernização da vida em geral,
e o que hoje se consome como "tradição"
muitas vezes é apenas um eco diluído e estilizado
de uma realidade irremediavelmente perdida, mas esses movimentos
têm conseguido se cristalizar em símbolos eficientes
e cultivar expressões autênticas o bastante para
assegurar a consolidação e preservação
de uma memória social significativa e veraz, com o aval
de inúmeros pesquisadores sérios e patrocínios
oficiais. Além disso em muitos pontos do estado ainda se
encontram manifestações vivas e espontâneas
dos antigos costumes. A cultura urbana também criou traços
característicos aparentes em seus neologismos, seus hábitos
sociais diversificados e cosmopolitas, no acesso fácil
à tecnologia de ponta e à informação,
e no surgimento de um folclore próprio, já objeto
de estudo acadêmico. E como eles os judeus vêm revisitando
sua história, os polacos, os negros, e os outros grupos
minoritários, levando à reescrita de largos trechos
da historiografia oficial do Rio Grande do Sul e, no diálogo
entre tais culturas distintas, a uma maior integração
interna e à síntese de novas formas de expressão
e arte, algumas de notável vigor e originalidade.
