Causos,
Contos e histórias
GAÚCHO
VAI A PRAIA
Um
gaúcho da campanha, fazia uns trinta anos que não
saia da estância; foi quando o patrão dele resolveu
dar umas férias e como prêmio quis levar ele para
a praia e disse:
- Seu Pedro, vou levar o senhor para a praia comigo nesse verão.
- Bah Dr., o senhor sabe que eu não sou muito dessas coisas!
- Não te preocupa tchê, tu vai comigo qualquer coisa
eu te trago de volta.
- Bom, então eu vou com o senhor.
Chegando na praia o gaúcho vendo aquele monte de mulher
quase pelada tomando banho de sol ficou apavorado. Passado o susto,
ficou admirado com o mar e resolveu entrar na água, deu
uma arremangada nas bombachas e entrou, brincando feito piá.
Só que quando ele saiu a bombacha colou no corpo e todo
mundo ficou espantando com o tamanho do pertences dele que fazia
um volume mais ou menos perto do joelho, dai ele deu uma olhada
para todo mundo e disse:
- O que é que tá todo mundo me olhando?
- Vai dizê que quando vocês entram na água,
o de vocês não murcha também?
Colaboração de Eduardo (Lontra) - Dom Pedrito/RS
A
PESCARIA
Meu
pai estava pescando numa barragem no interior de Uruguaiana e
quando escureceu começo a correr trairas, cada uma mais
linda que a outra, de repente um companheiro diz pra ele:
- Tchê Miguel terminou as isca, que tal tu dar uma chulhada
por aí e ver se consegue alguma rãzinha?
Ele se foi e de repente encontrou uma cruzeira de dois metros
com uma rã na boca, deu de mão naquela cruzeira
e tomou a rã dela, não tendo nada para oferecer
deu para a serpente um bom trago de cãnha, passaram a noite
inteira pescando e trocando trago por rã com as cruzeiras
da redondesa.
Colaboração de Julio Moreira - Uruguaiana/RS
O VASO DE OURO
De Luiz Coronel
- Mas que tal, tchê? E as exposições, muita
festa e coisa e tal?
- Bicho velho, nem te conto.
Numa noite me enfezei com umas muchachas e saí a la gandaia.
Terminei numa casa de tais requintes, que quando fui soltar as
virilhas o vaso era de ouro. Ouro maciço, Elpídio.
Até me deu constrangimento.
- Manuelito, menos, por favor.
Não te retruco, nem te contradigo, mas vamos deixar esse
vaso de ouro por conta dos tragos, mano velho.
- Tchê, tu sabes, se há
uma coisa que me embrulha a cabeça e me arrepia os pelos
é duvidarem de mim. Vamos apostar? A gente vai junto à
Capital. Mijamos no vaso de ouro, escolho um cavalo crioulo dos
teus, e afora isso uma garrafa de Ballantines.
Não mijamos, babaus, o
ganho é teu.
E o rebanho dos dias entrando
no corredor das semanas. Um dia, desses que aparecem pendurados
nas folhinhas, lá estavam o Elpídio e o Manuelito
no Hotel Umbu. O nome já era uma garantia contra os raios.
E saíram pela noite dos
alarifes.
Um uísque, aqui não
é. Um acepipe e dois uísques, também não.
E vamos em frente, que casa noturna é o que não
falta. E, afinal de contas, a noite é uma criança.
Lá pelas três da
madrugada, entram numa espelunca onde a música, deflora
os tímpanos e refestelava as pinguanchas.
Mas foi o Manuelito botar o pé
no salão, que veio o grito desaforado de um tal de Manchinha,
cantor da Banda Fuzarqueira:
- Mutuca, Mutuca, olha o cuera
que mijou no teu trombone!
E foi aquele pega pra capar.
Voltaram para Dom Pedrito. Até
hoje ninguém sabe quem pagou quem. Agora, é freqüente
ver os dois comparsas, sentados, numa cadeira de rua, tomando
umas que outras de Ballantines...
Contribuição: Carlos Madruga - Porto Alegre
HOMERO
O
Homero era o mais novo de seis irmãos que moravam num fundo
de rincão. Guri duns vinte anos, desde cedo se acostumou
a ouvir as façanhas dos irmãos mais velhos: era
lorota, briga, baile, gauchada... E o Homerinho ficava encimesmado:
"Um dia, ainda vou fazer alguma cousa como esses meus irmãos!".
O Homero tinha duas particularidades: a primeira era uma vontade
louca de conhecer a cidade, um baile do povo, uma tasca; a segunda
era que tinha um medo que se pelava todo de polícia, porque
um irmão tinha sido lastimado, um outro morto e ainda outro
tinha levado uns planchaços de Brigadiano. E ele tinha,
então, um medo que se pelava todo de polícia...
Minto!
O Homero tinha três particularidades: medo de polícia,
uma vontade grande de conhecer uma tasca e uma ânsia louca
de comprar um revólver... - "Um dia ainda vou ter
um revólver!", dizia. Acontece que ele era changador.
Quando aparecia serviço, ele pegava. Às vezes, ficava
em casa de companheiro da mãe, mulher já bem velha,
quando os irmãos mais velhos saíam. Um dia apareceu
um comparsa de esquila. Era mês de setembro, quando logo
se iniciam as tosas de ovelha. No segundo dia, um tosador cansou,
e o Homero estava lá. O chefe da comparsa perguntou ao
patrão: - Não terá alguém que pegue
na tesoura? - Olha, tem o Homero. Quem sabe não dá?
Tocaram o Homero na tesoura. O homem se revelou um aço!
E ficou de efetivo na comparsa. Começou a ganhar dinheiro,
o Homero. E sempre com aquele troço na cabeça: -
"Vou conhecer a tasca e vou comprar um revólver!".
Começou a ganhar dinheiro, ganhar dinheiro... E terminou
a esquila. Ele pegou o dinheiro, encilhou o cavalo e tocou pra
cidade. - "É hoje!
Mas conheço a tasca ou compro o revólver antes?
Se eu comprar o revólver e for pra tasca, vai dar um baita
bochincho! Vou fazer o seguinte: vou na tasca primeiro e amanhã
compro o revólver!". Assim foi. Tomou um trago no
bolicho e comeu salame com bolacha. O bolicheiro tinha um revólver.
Homero já deixou entabolado o negócio e disse pro
bolicheiro: - Cuida do meu cavalo com os arreios e da minha faca.
Amanhã, bem cedo, pego o revólver. E saiu, o Homero.
Por informação do irmão, ele sabia o rumo
da tasca. Dali uns quinhentos metros achou armado o moçorongo.
Foi-se chegando, por longe, assim como quem tropeia zorrilho:
devagarinho e bem por longe.... Fez a volta no salão, devagarinho...
Daí há pouco veio uma moça: - Vamos dançar,
Baixinho? - É! Se for preciso, bamo... E saiu dançando,
como quem dança de meio-luto: bem abaixadinho, pelo cantos.
Dança daqui, dança dali, sentou. Uma Brahma... Ali
pela sexta Brahma o Homero era dono do salão. - É
comigo mesmo, hoje! Quando o sol levantou pegou o
Homero saindo da tasca, numa baita ressaca e sem um tostão
no bolso.
- "E agora? O que é que eu vou fazê!".
Chegou no bolicho. O bolicheiro deu um mate gordo pra ele. O Homero
foi perguntando: - Quanto tu me dá pela faca? - Dou cinqüenta
pila, disse o bolicheiro. Cinqüenta era o que custava uma
passagem da cidade à estação do Homero. E
ainda tinha de caminhar duas léguas a pé. - Então
tá. Tu me dá cinqüenta pela faca e eu te dou
meu cavalo encilhado pelo revólver. O xiru olhou o cavalo;
sabia que era bom. Viu os arreios: mais ou menos... - Tá
feito o negócio! Homero pegou o revóver. Era o que
mais queria! E o baixinho saiu meio ladeado, com aquele baita
trinta-e-oito na cintura. Comprou uma passagem de segunda e entrou
no vagão. Logo que entrou, sentou pra direita. E assim
ficou, no meio daquele mundo de gente, sozinho no banco. Dali
a pouco sai o trem. E ele com aquele revólver... - "Tomara
que esse trem chegue duma vez na minha estação",
pensou o Homero.
Lá na ponta do vagão abriram a porta. E ele viu,
assim por cima do banco, que levantou um quepe. O índio
velho que vinha diz: - Revistas!
Aí o Homero se apertou! O xiru velho chegava num banco,
noutro e vinha vindo... - "Ai, ai, ai... tô liquidado!",
pensava o Homero.
Esse xiru, na verdade, vendia bilhetes de loteria e revistas,
umas até do Exército da Salvação.
E vinha: - Trinta-e-dois e trinta-e-oito!
Pra hoje! E o do Homero era trinta-e-oito! A la pucha, chê!
E ele pensava: - " Tô arrebentado!". E o vivente
vinha num banco, chegava noutro: - O Policial! O Detetive! Salva
Tua Alma! - "Tô roubado!", pensava o Homero. Um
gaúcho comprou todo o mil novecentos e trinta e dois que
o vendedor tinha. E o bilheteiro: - Trinta-e-dois já foi!
Agora, o trinta-e-oito! - "Aaaaai... agora não escapo!",
pensou o coitado do Homero. - O Policial! E o vendedor de bilhetes
chegou bem perto do Homero e sampou, forte: - Trinta-e-oito! E
o baixinho Homero,
já não aguentando mais aquela aflição
braba, soltou, já aliviado:
- Tá, seu guarda! Pega essa porquera logo, que desde que
eu comprei essa desgraça foi só pra me incomodá!!!
Autor: Nei Machado
