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A criação do tradicionalismo e o surgimento do nativismo

A primeira tentativa de organização do tradicionalismo surge em 1898 com a criação do Grêmio Gaúcho em Porto Alegre, por Cezimbra Jacques. Alguns autores afirmam que Cezimbra Jacques agiu influenciado pelo Partenon Literário que reunia a elite cultural de sua época. Outros clubes são fundados no interior do Estado. Segundo Hélio Moro Mariante em História do Tradicionalismo Rio-Grandense, foram a União Gaúcha de Pelotas, Centro Gaúcho de Bagé, Grêmio Gaúcho de Santa Maria, Sociedade Gaúcha de Lomba Grande de São Leopoldo (hoje pertencente ao município de Novo Hamburgo) e Clube Farroupilha de Ijuí. Moro Mariante afirma que este sentimento nativista impregnado na criação das entidades de preservação do regionalismo tem a influência do Uruguai que conta com a sua entidade tradicionalista La Criolla, fundada por Elias Regules, em 1894.

O tradicionalismo organiza-se definitivamente a partir de 1947, quase como uma birra. Em 1940, com a estatização da Rádio Nacional por Getúlio Vargas, a padronização cultural borra as manifestações culturais regionais. Por sorte, graças a sua força legítima não se apaga. Em 1941, os Estados Unidos reforçam as relações econômicas e culturais com a América Latina. O presidente Franklin Roosevelt cria o Birô Interamericano. Chefiado por Nelson Rockfeller, o Birô começa a divulgar no Brasil o american way of life, ou seja, o estilo de vida compatível com o consumo dos produtos tipicamente norte-americanos, desde a Coca-Cola até a revista Pato Donald. A indústria de refrigerantes investe altos valores monetários na Rádio Nacional para colocar no ar o programa Um Milhão de Melodias, uma espécie de parada musical norte-americana. Isto, na verdade serve como ponta de lança para a introdução do refrigerante e dos produtos da indústria cultural daquele país em todo o território brasileiro. A partir daí patrocinadores passam a ter suas marcas associadas aos programas, a exemplo de Teatro Good-Year, Recital Johnson, Programa Bayer e Calendário Kolynos. Eles se tomam os maiores sucessos radiofônicos dos anos 40. O rádio toma-se o fascínio dos ouvintes. Passa a ser o maior influenciador dos hábitos e costumes de milhões de brasileiros.

Segundo o historiador Gerson Moura, no seu livro Tio Sam Chega ao Brasil, "foi dessa maneira que entre 1946 e 1947 o Brasil foi inundado de produtos made in Usa…". Toda essa avalanche de informações culturais chega num momento em que o país atravessa um período de fragilidade cultural. Getúlio Vargas cria o Estado Novo e promove uma afronta às diferenças culturais do País. Estabelece, em 1937, a Constituição com o objetivo de unificar a Nação. O gaúcho de São Borja, enquanto presidente, instituiu que a bandeira, o escudo e as armas passam a ser os únicos no País. Com a cerimônia da Queima das bandeiras em praça pública, ao som do hino nacional, quando são hasteadas 21 peças da bandeira nacional em lugar das estaduais, fica clara a perda do poder regional e estadual. A partir daí, as mudanças profundas movem com o imaginário popular e a cultura passa a ser algo estabelecido pelo Estado Central. O samba ganha legitimidade como a representação musical e a entidade cultural do País. Depois, o governo impõe uma postura de unidade nacional permite que esta nacionalidade seja enxovalhada pela de outro país.

Com a queda da Ditadura Vargas o cotidiano regional começa a ser repensado. A imprensa começa a atuar livremente e os intelectuais retomam a divulgar o Brasil como uma nação de vários segmentos culturais.

Em 1947, o jovem estudante do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, recém chegado de Santana do Livramento, sai para tomar um cafezinho e avista uma bandeira do Rio Grande do Sul, servindo de cortina para tapar o vidro de uma janela do bar, entre cachaça e cigarro. O comerciante não sabia do que se tratava aquele pano. Foi a gota D’água. Naquele ano Paixão Côrtes cria, juntamente com alguns colegas, o Departamento de Tradições Gaúchas, no Colégio Julinho. O grupo acompanha de-a-cavalo o translado dos restos mortais do General farroupilha David Canabarro. A Primeira Ronda Crioula é criada para preservar, desenvolver e proporcionar a revitalização da cultura rio­grandense. O DTG comemora os 112 anos da Revolução Farroupilha. Acende-se da Pira da Pátria pela primeira vez o fogo que os tradicionalistas denominam de “Chama Crioula”.

"Não estávamos, nós os jovens, nos insurgindo contra as coisas do desenvolvimento, da liberdade, do progresso, e nem éramos insensíveis à evolução. Mas queríamos também o direito de fixar as nossas coisas, de preservá-Ias, de varolizá-Ias dignamente nos seus devidos lugares", afirma Paixão Côrtes no seu livro Origem da Semana Farroupilha - Primórdios do Movimento Tradicionalista. ­

Em 24 de abril de 1948 é fundado o 35 CTG, o pioneiro daquelas entidades. Hoje são mais de 1700 CTGs em todo o País. Em 1959, quando é criado o Conselho Coordenador, o Estado já conta com diversos CTGs. Em 1966 cria-se o Movimento Tradicionalista Gaúcho e em 1975, o Conselho Coordenador transforma-se em Conselho Diretor, ativo até a atualidade.

O movimento nativista surge com a criação da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul na cidade de Uruguaiana, em 1971. O País atravessa a sangrenta ditadura militar. A censura com mão de chumbo, define o que é mais apropriado para veicular ao povo. A música em idioma estrangeiro ganha as paradas de sucesso das emissoras de rádio e televisão, numa forma de adormecer aos mais atuantes cultural e politicamente. Em revés a estes cinzentos tempos, há grande movimentação cultural com a idealização de festivais de música popular brasileira nas diversas cidades do País. O mercado da música gaúcha está voltado para o regionalismo e o tradicionalismo. A trova está em alta, ainda por resquícios do programa ­radiofônico Grande Rodeio Coringa e alguns programas em emissoras AM no amanhecer ou entardecer do dia. Mas apesar disso, a parcela gaúcha no mercado discográfico é irrelevante, excetuando-se o fenômeno Teixerinha, recordista em vendas de discos até hoje.

A Califórnia da Canção é promovida por um grupo filiado ao CTG Sinuelo do Pago, em Uruguaiana. Na primeira edição, sessenta pessoas fazem a platéia. Nos tempos de ouro da Califórnia, entre a décima e a vigésima edição, chega a atrair 60 mil pessoas. O poeta Colmar Pereira Duarte é o centro de uma polêmica que gera o surgimento do festival. Acaba vencendo a primeira edição do evento que passa a ser exemplo para o ciclo dos festivais do Estado.

Na década de 80 surgem novos festivais e um verdadeiro turbilhão nativista começa a tomar conta do Estado. Os jovens passam a vestir bombachas, sair às ruas dos grandes centros com suas mateiras e formar rodas de mate nas praças. Apressadamente alguns tradicionalistas julgam que o movimento é apenas um modismo. Hoje Já contabiliza três décadas de atuação e centenas de títulos de festivais. Atualmente são em média 47 festivais por ano, mas já houve época com mais eventos deste tipo do que finais de semana. Com a grande produção musical gerada pelo nativismo surgem novos programas de rádio e televisão. A mídia começa a olhar com atenção para os nativistas e vê fundamento nos temas que são abordados pelos novos valores que começam a surgir ano a ano. Os festivais tornam-se mercado de trabalho e hoje há um elenco de mais de mil nomes cadastrados como compositores, músicos e intérpretes deste gênero musical só no Rio Grande do Sul.

Na década de 80 surge a primeira emissora de rádio segmentada exclusivamente na cultura gaúcha, a Rádio Uberdade FM. Antes disso algumas emissoras já dão cobertura jornalística aos festivais de música e aos eventos da tradição. Na atualidade são seis emissoras no Estado, cinco FMs e um AM.

O primeiro disco da Califórnia foi gravado em São Paulo. O movimento estruturou o mercado de trabalho, gerando uma espécie de indústria cultural gaudéria. Atualmente existe uma dezena de gravadoras no Estado e uma quantidade imensa de estúdios de gravações. O consumo discográfico gaúcho alcança a expressiva quota de 2 milhões de discos ao ano.

Assim como o tradicionalismo dá sustentação aos conjuntos musicais em seus fandangos, o nativismo faz surgir novos valores que breve tornam-se profissionais e passam a atuar como contratados dos próprios festivais para espetáculos especiais. Alguns deles Já se orgulham da conquista do DISCO de Ouro pela vendagem de 100 mil cópias de seus CDs.

Assim como o tradicionalismo tem no seu ENART (Encontro de Artes e Tradição Gaúcha) o seu principal encontro artístico anual, surge para o nativismo a lei que cria o Troféu Vitória, em 1995. Uma espécie de Oscar dos festivais, o Troféu Vitória acontece por três anos no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, a partir de março de 1996. Este encontro, promovido pela Associação dos compositores, Intérpretes e Músicos Nativistas (ACIMN), conta com o apoio do governo estadual da época que destina 100 mil reais para as premiações aos três melhores festivais e os artistas mais premiados do ano. Apesar de ter dado uma nova vida aos festivais, ele não acontece mais, embora a lei que o cria não tenha sido revogada.

A ACOFEM (Associação das Comissões Organizadoras dos Festivais de Música do Rio Grande do Sul) atua em plena sintonia com a SEDAC (Secretaria de Estado da Cultura) e CEC (Conselho Estadual de Cultura). Este equilíbrio entre as entidades é fundamental em virtude do surgimento da lei de Incentivo à Cultura para a realização dos festivais.

Bueno! As fontes destes dois magníficos textos são do JORNÀL DO NA TIVISMO, nº. 171, de Novembro de 2002, pág.16 e 17 e são de autoria do meu amigo Paulo de Freitas Mendonça, diretor do referido jornal e acadêmico de Jornalismo. Lembramos também que o Jornal do Nativismo pode ser acessado na Internet pelo www.nativismo.com.br e recomendo ao vivente que assine este jornal, que há 15 anos se dedica à cultura da nossa terra.

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